Pelas veredas do Guimarães: Rosas Parte IV
Explico ao senhor: andando por esse sertão do Guimarães,
não sei se acredita na minha pessoa, mas, ora veja, encontrei rosas. Ah, eu sei
que não é possível, mas “cada um só vê e entende as coisas dum seu modo”. “Porque,
nos gerais, a mesma raça de borboletas, que em outras partes é trivial regular
– cá cresce, vira muito maior, e com mais brilho, se sabe”. Mire veja:
Sobre humanos:
“Coração
da gente – o escuro, escuros.”
“Coração
cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e
varjas, matas e campinas. Coração mistura amores.”
“De
mim, toda mentira aceito. O senhor não é igual? Nós todos...”
“A
gente viemos do inferno... Duns lugares inferiores, tão monstro-medonhos, que
Cristo mesmo lá só conseguiu aprofundar por um relance a graça de sua sustância
alumiável... Que lá o prazer trivial de cada um é judiar dos outros, bom
atormentar; e o calor e o frio mais perseguem; e até respirar custa dor; e
nenhum sossego não se tem. Se creio? Acho proseável.”
“Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico:
todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se
carece da religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da
loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma...”
“O
mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão.O senhor ouvindo
seguinte, me entende.”
“O
senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as
pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão
sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.
Isso que me alegra, montão.”
“É
preciso olhar pra esses com um todo carinho...”
“Então,
se um menino, menino é, e por isso não se autoriza de negociar... E a gente,
isso sei, às vezes é só feito menino. Mal que em minha vida aprontei, foi numa
certa meninice de sonhos – tudo corre e chega tão ligeiro... Se sonha; já se
fez. Pois. Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira
ou não queira. Não é vendível.”
“Estou
contando ao senhor, que carece de um explicado. Pensar mal é fácil, porque esta
vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e
desmisturar.”
“A
gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio – essa é que é a regra
do rei!”
“...
segredos frescos contados não são pra todos.”
“...
era uma felicidadezinha que eu principiava.”
“Era. Mas o dito, assim, botava surpresa.”
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