Pelas veredas do Guimarães: Rosas Parte VII
Explico ao senhor: andando
por esse sertão do Guimarães, não sei se acredita na minha pessoa, mas, ora
veja, encontrei rosas. Ah, eu sei que não é possível, mas “cada um só vê e entende
as coisas dum seu modo”. “Porque, nos gerais, a mesma raça de borboletas, que
em outras partes é trivial regular – cá cresce, vira muito maior, e com mais
brilho, se sabe”. Mire veja:
Sobre as histórias:
“A lembrança da vida da gente se guarda em
trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho
que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de
rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou
pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa...
Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas
antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O
senhor mesmo sabe.”
“Para que referir tudo no
narrar, por menos e menor?... Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude
reunir relembrado e verdadeiramente entendido – porque, enquanto coisa assim se
ata, a gente sente mais é com o corpo a próprio é: coração bem batendo...”
“Nas histórias, nos livros,
não é desse jeito?”
“Contar é muito, muito
dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas
coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei
foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não. São tantas horas de
pessoas, tantas coisas em tantos tempos, tudo miúdo recruzado...”
“O senhor tolere minhas más
devassas no contar. É ignorância. Eu não converso com ninguém de fora quase.
Não sei contar direito. Aprendi um pouco foi com o compadre meu Quelemém; mas
ele quer saber tudo diverso: quer não é o caso inteirado em si, mas a
sobre-coisa, a outra-coisa. Agora, neste dia nosso, com o senhor mesmo – me escutando
com devoção assim – é que aos poucos vou indo aprendendo a contar corrigido. E
para o dito volto.”
“Para que conto isto ao senhor?
Vou longe. Se o senhor já viu disso, sabe; se não sabe, como vai saber? São
coisas que não cabem na ideia.”
“De tudo não falo. Não
tenciono relatar ao senhor minha vida em dobrados passos; servia para quê?
Quero é armar o ponto dum fato, para depois lhe pedir um conselho. Por daí,
então, careço de que o senhor escute bem essas passagens... Narrei miúdo, desse
dia, dessa noite, que dela nunca posso achar esquecimento...”
“Apreciei demais essa
continuação inventada.”
“Esta vida é de
cabeça-para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas. Mas conto. Conto
para mim, conto para o senhor. Ao quando bem não me entender, me espere.”
“Agora: o tudo que eu conto,
é porque acho que é sério preciso.”
“Era. Mas o dito, assim, botava surpresa.”
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