Pelas veredas do Guimarães: Rosas Parte V


Explico ao senhor: andando por esse sertão do Guimarães, não sei se acredita na minha pessoa, mas, ora, encontrei rosas. Ah, eu sei que não é possível, mas “cada um só vê e entende as coisas dum seu modo”. Mire veja:
Sobre pensar:
“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem misturam. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa.”
“Só que uma pergunta, em hora, às vezes, clareia razão de paz.”
 “De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos... quem mói no asp’ro, não fantasêia. Mas agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular ideia.”
“Vi muitas nuvens”.
“Tive de.”
“Sou só um sertanejo, nessas altas idéias navego mal... Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutrinação. Não é que eu esteja analfabeto. Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória.”
“Como é de são efeito, ajudo com meu acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!”
“Obra de opor, por medo de ser manso, e causa de se ver respeitado.”
“Quem desconfia, fica sábio: dizendo como pude, muito confirmei; mas confirmei que chegar até ali por dar volta cautelosa, e mesmo para sobre ter a calma de resolver os projetos em meu espírito.”
“Nasci devagar. Sou é muito cauteloso.”
“O que achassem, achassem! – mas ninguém ia manusear meu ser, para brincadeiras...”
“Gostei, em cheio, de escutar isso, soprante...”
“Mesmo dizia: - ‘Senhor atira bem, porque atira com espírito. Sempre o espírito é que acerta...”
“... me preveniu, com a boa noção vinda de sua redondice de atinar.”
“Toda a vida gostei demais de estrangeiro.”
“A gente não sabe, a gente sabe. Calei a boca toda.”
 “De seguir assim, sem a dura decisão, feito cachorro magro que espera viajantes em ponto de rancho, o senhor quem sabe vá achar que eu seja... sem caráter. Eu mesmo pensei.”
“Vender sua própria alma... Invencionice falsa! E, alma, o que é? A alma tem de ser coisa interna supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não tem a obediência legal.”
“Deus não queira; Deus que roda tudo! Diga o senhor...”
 “Aí está: Deus... Bem, o senhor ouviu, o que ouviu sabe, o que sabe me entende...”
“Ele era irrevogável.”
“Era. Mas o dito, assim, botava surpresa.”




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Riquezas do oceano

Um dilema monstruoso

Tito