Pelas veredas do Guimarães: Rosas Parte III


Explico ao senhor: andando por esse sertão do Guimarães, não sei se acredita na minha pessoa, mas, ora veja, encontrei rosas.
Sobre viver:
“Viver é negócio muito perigoso...”
 “Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons...”
 “O senhor sabe: o perigo que é viver...”
“Viver nem não é muito perigoso?”
 “Jagunço é isso. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota - quase que tudo para ele é igual. Nunca vi. Pra ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final. E todo mundo não presume assim?”
“O senhor deve de ficar prevenido: esse povo diverte por demais com a baboseira, dum traque de jumento formam tufão de ventania. Por gosto de rebuliço. Querem-porque-querem inventar maravilhas glorionhas, depois eles mesmos acabam temendo e crendo. Parece que todo mundo carece disso. Eu acho, que.”
“Viver é um descuido prosseguido.”
 “Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham se comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dando logo, até a hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso... a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...”
“... o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”
 “No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso...”
 “Mas o senhor vai avante. Invejo é a instrução que o senhor tem. Eu queria decifrar as coisas que são importantes.”
“Muita coisa importante falta nome.”
“Deveras se vê que o viver da gente não é tão cerzidinho assim?”
 “Esta vida está cheia de ocultos caminhos.”
“Tem um ponto de marca, que dele não se pode mais voltar pra trás.”
“Viver... O senhor já sabe: viver é etcétera...”
“O resto maior é com Deus.”
 “Era. Mas o dito, assim, botava surpresa.”

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