Pelas veredas do Guimarães: Rosas Parte II
Explico ao senhor: andando
por esse sertão do Guimarães, não sei se acredita na minha pessoa, mas, ora
veja, encontrei rosas. Ah, eu sei que não é possível, mas “cada um só vê e
entende as coisas dum seu modo”. “Porque, nos gerais, a mesma raça de
borboletas, que em outras partes é trivial regular – cá cresce, vira muito
maior, e com mais brilho, se sabe”. Mire veja:
Sobre o sertão:
“O senhor tolere, isto é o
sertão... Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um
pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso
vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade.”
“O sertão está em toda parte.
Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus
mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal...”
“Aqui não se tem convívio
que instruir. Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma
mais forte do que o poder do lugar.”
“Remei vida solta. Sertão:
estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa ainda encontra... Tudo em volta, é
um barro colador... Água ali nenhuma não tem – só a que o senhor leva... Dá o
sol, de onda forte, dá que dá, a luz tanta machuca... De noite, se é de ser, o
céu embola um brilho. Cabeça da gente quase esbarra nelas. Bonito em muito comparecer,
como o céu de estrelas... Mas em deslúa, no escuro feito. No escuro feito, é um
escurão, que pêia e pega. É noite de muito volume. Treva toda do sertão, sempre
me fez mal.”
“Nada, nada vezes, e o demo:
...Liso do Sussuarão, é o mais longe – pra lá, prá lá, nos ermos. Se emenda com
si mesmo. Água, não tem. Crer que quando a gente entesta com aquilo o mundo se
acaba: carece de se dar volta, sempre. Um é que dali não avança, espia só o
começo, só. Ver o luar alumiando, mãe, e escutar como quantos gritos o vento se
sabe sozinho, na cama daqueles desertos... Não tem pássaros.”
“E os outros, companheiros,
que é que os outros pensavam? Sei? De certo nadas e noves – iam como costume –
sertanejos tão sofridos. Jagunço é homem já meio desistido por si... A
calamidade de quente! E o esbraseado, o estufo, a dor do calor em todos os
corpos que a gente tem. Se ia, o pesadelo, pesadelo mesmo de delírios. A luz
assassinava demais.”
“Vendo assaz, se espantava
da seriedade do mundo para caber o que não se quer. Será acerto que os aleijões
e feiezas estejam bem convenientemente repartidos, nos recantos dos lugares. Se
não, se perdia qualquer coragem. O sertão está cheio desses. Só quando se
jornadeia de jagunço, no teso das marchas, praxe de ir em movimento, não se
nota tanto: o estatuto de misérias e enfermidades. Guerra diverte – o demo
acha.”
“O sertão é do tamanho do
mundo”.
“O que houve, foi um
contente meu maior, de escutar aquelas palavras.”
“Era. Mas o dito, assim, botava surpresa.”
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