Sobre o camaleão, sobre o muro
“Camaleões são
pertencidos pelas cores; eles se aperfeiçoam nas paisagens” (Manoel de
Barros). Com esse mote, Marco Berger
epigrafa seu livro de poemas, Um
camaleão sobre o muro, publicado em 2003, pela Editora Soco. Nossa, como estou
atrasada! Minha sorte é que bons livros sobrevivem ao tempo.
O poeta vai se travestindo camaleonicamente em lirismo
desmedido por entre as paisagens da cidade, humana como nós, cheia de
artifícios e nuances tantas, ao rés do chão, do muro nosso de cada dia (...tão
antigo e cimentado). Na primeira parte
do livro, é sobre esse muro que ele transita, na Fenomenologia da Verossimilhança (Corrompido pela minha humanidade/Vivo brincando de modelar o mundo/Eu,
que falo de mim aparteando a todo instante...).
No segundo ato dos versos, o camaleão ainda passeia poeticamente
sobre o muro, na “Ambivalência da
palavra”, “Escreve torto em linhas
retas/Pra destino ignorado/Sua dor é um porto abandonado”. É um “Andarilho”,
“...dos que garimpam/rios de olhares nas
mesas/com uma discreta represa/prestes a transbordar.”
O poeta é um “Sobrevivente”,
ele sabe: “As muralhas em minha
vida/Esmagaram neste poema o aveludado leporídeo de seus versos/E turvaram a
translucidez da água-marinha dos afetos neles pretendidos.” Sobrevive aos
abismos humanos emergindo com versos cheios de lirismo, sensualidade e
consciência de si, do outro, do mundo.
Você já leu o livro? Ah, está perdendo. Aproveite o
embalo e arraste-se sobre esse muro, na companhia de Marco Berger. Aceitando o
seu convite, você se deixa também pertencer camaleônico pelas cores.
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