Cinzas de Carnaval
Diz a lenda que o Brasil
começa depois do Carnaval. É como se o brasileiro tivesse uma existência
esquizofrênica perene: o prazer dissociado da construção diária da vida. Essa
máxima poderia ser diferente, já que milhões de brasileiros laboram incessante
e diariamente e deveriam ter qualidade de vida, condições de trabalho, subsistência,
lazer e prazer sadios e festivos, ao longo de todo ano, não apenas na catarse
coletiva de quatro ou cinco dias, financiada por interesses escusos da
indústria de bebidas e outras, e dos bastidores contra-vencidos das escolas de
samba. Apesar disso, o Brasil emerge do Carnaval.
Coincidentemente, nesses
dias de cinzas, fui motivada a discutir um tema que rola na mídia, sobre o recém-lançado:
“Cinquenta tons de cinza”, filme baseado
no primeiro livro de uma trilogia best-seller
do mercado editorial. Não li os livros. Não posso falar sobre eles, mas fiquei
sem graça de pelo menos não ver o filme e poder opinar a respeito, ainda mais
com o tempo livre do feriado prolongado.
Apesar das polêmicas em
torno, não me arrependi. Não que a produção cinematográfica tenha algo de inovador.
Pelo contrário, é hollywoodiana, calcada nos aparatos do estilo colonizador de
vida americano. Além do mais, desperta a
curiosidade de muitos pela propaganda que enseja sobre posições e artimanhas sexuais.
Expectadores vão ao cinema por isso. Advirto de antemão que talvez se excitem
mais com o Big Brother da TV. As cenas não são muitas, sem grandes arroubos. E pra
quem é fã de sadomasoquismo, dizem os entendidos, elas são fichinhas.
O roteiro previu algum close em detalhes interessantes, como a
tomada inicial da gaveta de gravatas do protagonista, em variados tons de cinza.
Ou a chegada da mocinha “submissa”, que tropeça à entrada do escritório do galã
e cai de joelhos, o que motiva de cara a atração inicial do rapaz.
Mas penso que o melhor do
filme são as reflexões sobre os fundamentos das relações amorosas, para além da
cama ou de chicotes. O filme mostra um jogo sedutor e perigoso entre dois
personagens igualmente atuantes. Um deles, o homem, atraído por subjugar
emocionalmente o outro, a mulher. Ela crê que, dificultando a conquista dele,
poderá persuadi-lo a ser diferente. Ambos entretidos numa disputa de poder. E
nesse jogo permanecem. Ele sentindo-se cada vez mais atraído por domá-la; ela,
mais ferida por não conseguir mudá-lo, até enxergar-se apaixonada.
Então, ela se expõe a
conhecer cada vez mais até onde ele pode ir para satisfazer-se e, por fim,
interrompe o jogo. Consegue dizer não. Pra mim, o melhor momento do filme, uma
vez que, historicamente, sei que quem ocupa essa segunda posição são as
mulheres, e elas pagam alto preço por situações assim, porque foram criadas
para a submissão. Mas, poderia também ser uma posição inversa. O filme sugere
que o rapaz foi alvo de jogos semelhantes e, de subjugado, transformou-se em dominador.
Não gosto de filmes e livros
pedagógicos. Esse me parece um deles. Mas a vida tem mecanismos pedagógicos. E,
se há algum proveito nesse sentido em relação ao filme, não passa pelo
aprendizado da quantidade de novas posições na cama. Passa pela construção de
uma consciência da necessidade de relações sadias entre homens e mulheres que
se reconheçam cada vez mais livres e humanizados.
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