O sensu de todas as coisas
Lembro-me de
quando os dezenove poemas iniciais de meu livro “Amar o Mar” ficaram prontos. Aquela
produção exigiu de mim mergulhar em inúmeras vivências junto aos mares da minha
cidade. Todo o universo de percepções e sensações próprias de quem convive com
as realidades litorâneas afloraram ali.
Recordo-me também
de que pedi a algumas pessoas para lerem os originais. Minha tentativa era de
me comunicar com o público infanto-juvenil. Então busquei alguns escritores e
leitores reconhecidos na área para avaliarem meus textos.
Fiquei surpresa
com a reação de uma poeta famosa no meio da produção para crianças e jovens,
diga-se de passagem, reação única. Ela me disse que meus versos traziam uma
sensualidade não própria desse público em potencial. Fiquei incomodada com aquela
observação, sentindo-me violando a consciência dos “baixinhos”. Mas com o
passar do tempo, percebi certo preconceito presente naquela afirmativa.
Continuei
buscando a publicação, que aconteceu em 2005, pela Editora DCL/SP. Dos textos
enviados, nove foram selecionados para constar no livro, que recebeu um belo
projeto gráfico e ilustrações bem lúdicas de Fê.
O que aquela
poeta chamou de sensualidade é fato em vários poemas do livro. Porque ele trata
de aspectos muito sensuais da natureza. E é preciso ter sensibilidade para
perceber tais nuances ao nosso redor. Aliás, a palavra sensual vem do latim sensu,
relativo a sentimento, sentido, sensibilidade, percepção. E a natureza é rica mesmo
em sensualidades.
O que direi de um
poema de Bilac, parnasiano feliz em suas concretudes poéticas.
Sobre a língua materna, sensualizou: “Última
flor do Lácio, inculta e bela,.../ Amo o teu viço agreste e o teu aroma/De
virgens selvas e de oceanos largos!...”
E como tratarei
uma crônica jornalística de Drummond, ao homenagear o cientista Augusto Ruschi
em suas incursões científico-amorosas entre o reino dos pássaros, expressas no
livro ‘Aves do Brasil”?: “[...] peço a todos que me deixem em paz no meu
canto, observando o galanteio das aves. É, o galanteio das aves. Operação que
me dá prazer e nenhum trabalho [...] Só quero ver hoje o idílio das aves [...] Ruschi, anos e anos a fio, vai se chegando às
espécies mais diversas, vai surpreendendo o apelo erótico, o modo particular de
cada ave cumprir seu destino genético [...] Carece falar na corte do beija-flor
à sua amada? É um show com jogos de luz mudando a cor da plumagem, para fascinar
a mocinha [...]
O que diriam os leitores hoje, de olhos bem abertos para as
sensualidades da natureza, se lessem os versos de “A areia e o mar”? Ele
está entre os poemas do meu livro para crianças e recebeu ilustrações a arranjos
gráficos bem lúdicos. Talvez se estivesse em uma publicação reconhecidamente
para adultos, sem ilustrações ou com apelos visuais mais eróticos, fosse lido
despertando outros sentidos:
“O
mar propõe à areia
fazer um programa
bem bacana.
A areia, muito arisca,
cisca com as pedras
umas fofocas.
O mar promete
fazer um castelo
pra sua princesa
e enfeitar com musgos
e algumas algas.
O
cheiro da areia
é
quente,
muito
calor do sol...
É
preamar.
O
mar se eriça todo.
É
maré cheia.
As
mãos do mar
se
arrastam na areia,
que
não se deixa
ir
na onda.
A
areia
nem
se mexe,
cobrindo
as
partes
do corpo
na
praia.
O
mar fica irado.
Então...
enche
a orla de conchinhas
pro
menino pegar.”
Gosto de pensar em um comentário que ouvi de uma
amiga, que já conhecia o “Amar o Mar”. Ao ver esse poema publicado em meu blog
literário (www.silvanaapinheiro.blogspot.com.br),
surpresa, ela me disse: “nunca havia percebido o quanto de sensualidade tem o
seu poema”.
Tal constatação, embora semelhante à da poeta que
leu o texto antes de sua publicação, me pareceu realmente feliz. Porque um
texto permite várias camadas de leitura. E nenhuma delas precisa ser excludente
de outras, para agradar apenas a um público específico.
Adultos e crianças podem ler o mesmo texto poético,
cuja linguagem atinge a ambos, e construírem sentidos próprios, segundo suas
vivências como pessoas, como leitores.
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