Alice no Espelho
Um dos ganhadores do Prêmio Jabuti
2006/2007, na categoria Livro Juvenil, foi o livro Alice no Espelho, de
Laura Bergallo, Edições SM, com ilustrações de Edith Derdyk.
Texto e ilustrações fazem alusões
claras às obras de Lewis Carrol, Alice no
País das Maravilhas e Alice através
do espelho, a começar da epígrafe do primeiro capítulo, que introduz a
protagonista, também Alice: Criança da
fronte pura e límpida/ E olhos sonhadores de pasmo!...
Alice vai se mostrando aos poucos:
uma adolescente em processo de sofrimento por transtornos de anorexia e
bulimia, frutos de uma sociedade governada pela ditadura da estética.
A temática da mulher presa ao
espelho, como figura do culto ao corpo, aparece também na personagem da mãe,
Elisa, cujo nome é um anagrama quase perfeito do nome da filha, que, sob muitos
aspectos, a espelha.
Ao longo do livro, há inúmeras
referências à obra de Carrol, na própria memória de Alice, cujo nome foi
escolhido pelo pai, por causa do clássico infantil. Seu pai, quando ainda
convivia com a filha, se mostrou um importante formador da Alice leitora, da
palavra e do mundo, dado que a impulsiona, ao longo da trama, a sair da prisão
do espelho.
O texto se constrói num diálogo
permanente entre o mundo de fantasia de Carrol e a realidade da menina, que
convive com o duplo abandono e ausência dos pais e a ambigüidade de sentimentos
em relação a eles.
Em dado momento, Alice atravessa
o espelho e encontra Ecila, seu personagem-reverso, um alter ego, de nome
igualmente anagramático, que ajuda Alice a se reencontrar num mundo de
aparências, vivenciando muitas aventuras.
Em contraste com o texto de
Carrol, a passagem pelo espelho confronta Alice com um mundo imaginado, onde o
faz-de-conta não subsiste à cruel realidade a que adolescentes de seu tempo são
subjugadas. Ali, tudo remete ao mundo dos espelhos, dos modelos, das exigências
de uma beleza padronizada. E é retornando desse mundo imaginado que espelha o
real, que Alice consegue rever-se frente às exigências de seu tempo.
O livro é rico em possibilidades
de leitura e relações intertextuais, levando o leitor a uma viagem fantástica
pelos espelhos da contemporaneidade. Imperdível!
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