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Tito

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Tito é meu sobrinho. É autista, por isso, muito especial. Senti-me desafiada a levá-lo a um passeio matinal de domingo, no calçadão da praia. Sol forte, muita gente, movimento antecipado do verão. Como ele ainda não fala, por força da síndrome mesmo, e nem sempre podemos estar juntos, a comunicação não é muito simples. Pedi algumas instruções à secretária da casa, para minimizar um pouco o meu medo de que o passeio não acabasse bem. Ela me respondeu com a simplicidade e sabedoria dos que enxergam a vida por vias da experiência: “É só prestar atenção. Ele vai mostrar tudo quando ele querer.” A troca da conjugação do verbo no futuro do subjuntivo para o infinitivo pessoal ecoou nos meus ouvidos, não só pelo fenômeno da regularização da variação sociolinguística no uso de verbos considerados ‘irregulares’ como o querer, o que não vem absolutamente ao caso, mas por me dar a chave de um encontro com meu sobrinho. Fiz isso: deixei-me conduzir pelo Tito. E fui repetindo a máxima comigo: “Ele ...
Artigo crítico de Herbert Farias sobre o meu livro "Femear" http://www.tertuliacapixaba.com.br/paraler/dualidade_e_transcendencia.html?fbclid=IwAR1mC3Zj2yrwdPGUqrZ3Va1kUStwCPpKaRoaNxOSxz2ZFuBJvV64uYIIee4
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Hoje acordei sem máscaras. Posso. Estou em casa. E minhas máscaras estão contaminadas, como a de todas e todos. Máscaras sujas se lavam em casa, não é mesmo? Ando adoecida pelo meu país, como um todo, como todas e todos. Deu ruim. Erramos, todas e todos. Eu errei. Fiz escolhas equivocadas e deixei que outras e outros me impusessem as suas. Precisamos de meia volta, todas e todos, sem militarismos, volver, sim, à sanidade, à civilidade. Todas e todos. De todas as etnias, de todas as tribos, de direita, de centro, de esquerda, de cima, de baixo. Mas quem está em baixo sente mais a queda de todos. Uso as marcações de gênero no texto daqui pra frente apenas no masculino. Não porque as mulheres não errem, mas porque nossa raiz menos humana assume uma voz de homem. Cristãos e ateus, acadêmicos e não acadêmicos, teólogos e leigos, estamos com o dedo em riste, cheios de julgamentos. Quem está há mais tempo na história, quem chegou agora. Todos se acham no direito de pensar os desfechos e apont...

Com a bola na mão

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Hoje sou eu quem quica a bola da vez, filho. À medida que ela bate no chão e volta às minhas mãos, refaço idas e vindas, ataques e defesas de um jogo que começou a dezenove janeiros atrás. Lembro de você enterrado em uma cesta, em rede líquida e maternal, ultrapassando em muito o ritmo das batidas do meu coração, correndo entre os caminhos do meu ventre. Quando achava que estava aqui, você já aparecia ali. E assim irrequieto, acabou dando mais passes do que devia no cordão que nos unia, quase estourou o tempo. Deu trabalho na hora de irromper quadra a fora, pra vida. Já nasceu chorando seus direitos. Mas como o mundo é redondo, do jeito que você gosta, se sentiu em casa e repousou quase quietinho na esfera da minha barriga, às quatro horas da manhã de um dia festivo. Dois pontos: coragem. Lembro de como sua agilidade e impermanência eram presentes em tudo. Ninguém conseguia bloquear suas jogadas. Colocar fralda e roupa em você era um jogo rápido. Uma mão equilibrando uma bola, e ...

Crônicas da criação VI e VII

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  Chegamos finalmente ao sétimo dia. Olha que dá até pra descansar um pouco. Mafalda e Naum estão realmente se entendendo, ao estilo dos gatos. Já o povo, muito religioso, vem todo dia ler as crônicas e me cobra quando vai sair a próxima. Reclamam que tinham que ser sete, pra ficar igual à Bíblia, se não dá azar. O que é uma heresia, né, gente? Uns profetizam que a história terá um final feliz. Outros perguntam como é que eu vou fazer quando eles tiverem filhotes. Olha procevê: conseguem pensar nisso. Não querem que eu descanse. Pois vou dizer uma coisa. Me contento com um final feliz ao fim do dia. Mafalda e Naum já conseguem sentir o cheiro do outro pela casa, podem se olhar e passear pelos cômodos sem a minha sombra. Até conseguem se tocar em alguma brincadeira. Não posso dizer que não há estresse. Mas quase vejo a paz. A bem da verdade, acho que sou eu a mais estressada. Porque é assim, ó: preciso deixar que eles sejam felinos e (o desejo é meu) em boa convivência. Co...

Crônicas da criação III, IV e V

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  Ué... Três dias numa crônica só? É, não tem aquela parte de que no sétimo descansou? Então, não vejo a hora. Mas, tirando o cansaço, há alguns avanços. À medida que os dias passam nesse tipo de adaptação, a tática é introduzir gradativamente a visualização, quando surgem boas oportunidades. No nosso caso, o contato visual ocorreu sem bons resultados no começo de tudo, então precisávamos acertar. Mafalda, a cada novo dia, se apercebia mais e mais dos cheiros do gatinho pela casa toda e desconfiava de que algo estava diferente. Tinha alguma presença estranha na jogada, sentida em odores a que se acostumou devagarinho. Então, no quarto dia, deixei que ela observasse o gato dormindo à distância. A bufada reapareceu, um grunhido estranho e o pelo eriçado. Ela estava visivelmente estressada. Entre ela e o gato sonolento, fiquei de cócoras conversando. O google disse que é bom conversar. Me senti mais normal. Acho mesmo que os gatos respondem quando falo. E funcionou. Ela acal...

Crônicas da criação II

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Acessei os arquivos do google sobre adaptação de gatos. Fiquei confusa com tanta dica. Melhor era ativar a tecla bom senso diante do que estava armado. Entendi que precisava separar os gatos. Cada qual no seu quadrado. Mafalda já tinha o dela, mais de um. Agora precisava delimitar o espaço possível para o novo amigo. Acordei cedo e organizei um ambiente tranquilo pra ele. Restrito, como cabia, no banheiro social. Um espaço pequeno, pouco frequentado pela anfitriã. A dica melhor do google: eles não podem se ver nessa fase. É preciso deixar que sintam apenas os novos cheiros um do outro para, quem sabe, se acostumarem a uma nova presença. Muito bem. Lá estava eu, malabaristicamente impedindo que os dois se vissem. Enquanto Mafalda dormia em um dos cômodos, eu fechava a bichinha lá dentro e soltava o gato para conhecer o ambiente aos poucos. Tinha medo de pisar nele, tão novinho. Mas ele tem desenvoltura e andava bem pela casa, vivenciando os cheiros e os meus tratos, numa miação,...