Hoje acordei sem máscaras. Posso. Estou em
casa. E minhas máscaras estão contaminadas, como a de todas e todos. Máscaras
sujas se lavam em casa, não é mesmo? Ando adoecida pelo meu país, como um todo,
como todas e todos. Deu ruim. Erramos, todas e todos. Eu errei. Fiz escolhas
equivocadas e deixei que outras e outros me impusessem as suas. Precisamos de
meia volta, todas e todos, sem militarismos, volver, sim, à sanidade, à
civilidade. Todas e todos. De todas as etnias, de todas as tribos, de direita,
de centro, de esquerda, de cima, de baixo. Mas quem está em baixo sente mais a
queda de todos. Uso as marcações de gênero no texto daqui pra frente apenas no
masculino. Não porque as mulheres não errem, mas porque nossa raiz menos humana
assume uma voz de homem. Cristãos e ateus, acadêmicos e não acadêmicos, teólogos e leigos, estamos com o dedo em riste, cheios de julgamentos.
Quem está há mais tempo na história, quem chegou agora. Todos se acham no
direito de pensar os desfechos e apontar o dedo, ironicamente ou não, até
de brincadeira. Às vezes em nome da paz, inclusive. Precisamos chorar. Todos. Olhar
para nós mesmos. Aquele que não tem erros nisso tudo, atire a primeira pedra.
Nossos olhares estão plenos de perversidade, indistintamente. Nossas melhores
intenções se resumem a tirar algum proveito do momento e salvar a pele. E eu me
incluo. Nossa história comum carece de um final mais feliz, só possível, se
cada um olhar pra dentro de si e chorar. Chorar nossas mazelas. Talvez assim
possamos, todas e todos – retomo as marcações de gênero – chorar até com os que
choram. Há muita gente morrendo. E há muitos que até já cheiram mal.
Está na hora de encontrar recomeços pessoais, quiçá, coletivos. Quem sabe
possamos sair um após o outro, uma após a outra, em silêncio reverente, para
encontrar um espaço, onde, curvados sobre nós mesmos, contemplemos um deus-homem
escrevendo na areia.
Com a bola na mão
Hoje sou eu quem quica a bola da vez, filho. À medida que ela bate no chão e volta às minhas mãos, refaço idas e vindas, ataques e defesas de um jogo que começou a dezenove janeiros atrás. Lembro de você enterrado em uma cesta, em rede líquida e maternal, ultrapassando em muito o ritmo das batidas do meu coração, correndo entre os caminhos do meu ventre. Quando achava que estava aqui, você já aparecia ali. E assim irrequieto, acabou dando mais passes do que devia no cordão que nos unia, quase estourou o tempo. Deu trabalho na hora de irromper quadra a fora, pra vida. Já nasceu chorando seus direitos. Mas como o mundo é redondo, do jeito que você gosta, se sentiu em casa e repousou quase quietinho na esfera da minha barriga, às quatro horas da manhã de um dia festivo. Dois pontos: coragem. Lembro de como sua agilidade e impermanência eram presentes em tudo. Ninguém conseguia bloquear suas jogadas. Colocar fralda e roupa em você era um jogo rápido. Uma mão equilibrando uma bola, e ...

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