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A caixa de Klara

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Klara Meindert é uma professora muito querida por seus alunos. Amiga e criativa, tem o dom de transformar cada aula em uma aventura especial. Mas ela está doente e não viverá muito tempo, e isso é um choque para as crianças. Aos poucos, elas se fortalecem para enfrentar a situação com o carinho que sentem pela professora e a memória de tudo que viveram juntos. Ao longo do livro, principalmente por meio das experiências vivenciadas por Julius, um dos alunos de Klara, o leitor se depara com a realidade da morte e suas implicações sociais, religiosas e filosóficas, bem como com os dramas humanos de quem, por motivos e situações diversas, precisa lidar com esse grave fato da existência. O grande diferencial do livro tem a ver com a ótica infantil de interpretação dos fatos em torno da morte, desde a impossibilidade de revertê-la, até o lidar com os significados e sentimentos envolvidos no processo de separação. No caso da história em questão, um luto antecipado pelo longo tempo de e...

Je vole

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https://www.youtube.com/watch?v=UdFrMMX5AIA Je vole é o título da canção de Michel Sardou, que marca várias cenas do filme francês “A família Bélier” . O drama-comédia é dirigido por Eric Lartigau e trata de uma situação recorrente em produções sobre conflitos familiares de adolescentes. Uma garota da zona rural francesa se descobre, sob a influência de um professor de música, com um talento especial para cantar, que pode mudar radicalmente sua história junto à família, levando-a a ingressar em um novo estilo de vida. Seria inexpressivo se estivesse reduzido a esse enredo. No entanto, a protagonista é a única falante da família. Os outros membros são surdos e mudos. Ela é a porta-voz do grupo, inclusive nos negócios agropecuários da família, mediando a relação dos pais com a comunidade rural onde estão inseridos. Em meio à descoberta do talento pessoal e do prazer que isso lhe desperta, Paula (Louane Emera)  se percebe envolta no conflito de caminhar em direção o...

Cinzas de Carnaval

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Diz a lenda que o Brasil começa depois do Carnaval. É como se o brasileiro tivesse uma existência esquizofrênica perene: o prazer dissociado da construção diária da vida. Essa máxima poderia ser diferente, já que milhões de brasileiros laboram incessante e diariamente e deveriam ter qualidade de vida, condições de trabalho, subsistência, lazer e prazer sadios e festivos, ao longo de todo ano, não apenas na catarse coletiva de quatro ou cinco dias, financiada por interesses escusos da indústria de bebidas e outras, e dos bastidores contra-vencidos das escolas de samba. Apesar disso, o Brasil emerge do Carnaval. Coincidentemente, nesses dias de cinzas, fui motivada a discutir um tema que rola na mídia, sobre o recém-lançado: “ Cinquenta tons de cinza ”, filme baseado no primeiro livro de uma trilogia best-seller do mercado editorial. Não li os livros. Não posso falar sobre eles, mas fiquei sem graça de pelo menos não ver o filme e poder opinar a respeito, ainda mais com o tempo liv...

Memórias Póstumas de Noel Rosa

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Este é o título do livro de Luciana Sandroni dirigido ao público juvenil, editado pela Companhia das Letrinhas em 2014. Traz ilustrações de Gustavo Duarte, lembrando as autocaricaturas de Noel Rosa. Além de toda riqueza de texto e imagens, apresenta ao final uma série de partituras de Maria Clara Barbosa, acompanhada das letras do sambista carioca. O subtítulo, “Uma longa conversa entre Noel e São Pedro num botequim lá do céu”, mostra o tom de carnavalização da obra, em citação ao samba noelino “Festa no Céu”, reforçado pela referência explícita, no título, ao livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Assim como no livro do Bruxo do Cosme Velho, o texto de Sandroni traz um prólogo explicativo da autora sobre as memórias que virão adiante, apresentando o narrador, o boêmio Noel, e seu interlocutor celeste. E no som de toda a narrativa, pode-se perceber que também foi escrita com certa “pena de galhofa e tinta de melancolia”, como em Brás Cubas. Elemento comum...

O sensu de todas as coisas

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Lembro-me de quando os dezenove poemas iniciais de meu livro “Amar o Mar” ficaram prontos. Aquela produção exigiu de mim mergulhar em inúmeras vivências junto aos mares da minha cidade. Todo o universo de percepções e sensações próprias de quem convive com as realidades litorâneas afloraram ali. Recordo-me também de que pedi a algumas pessoas para lerem os originais. Minha tentativa era de me comunicar com o público infanto-juvenil. Então busquei alguns escritores e leitores reconhecidos na área para avaliarem meus textos. Fiquei surpresa com a reação de uma poeta famosa no meio da produção para crianças e jovens, diga-se de passagem, reação única. Ela me disse que meus versos traziam uma sensualidade não própria desse público em potencial. Fiquei incomodada com aquela observação, sentindo-me violando a consciência dos “baixinhos”. Mas com o passar do tempo, percebi certo preconceito presente naquela afirmativa. Continuei buscando a publicação, que aconteceu em 2005, pela Ed...

Sobre o camaleão, sobre o muro

“ Camaleões são pertencidos pelas cores; eles se aperfeiçoam nas paisagens ” (Manoel de Barros). Com esse mote, Marco Berger epigrafa seu livro de poemas, Um camaleão sobre o muro , publicado em 2003, pela Editora Soco. Nossa, como estou atrasada! Minha sorte é que bons livros sobrevivem ao tempo. O poeta vai se travestindo camaleonicamente em lirismo desmedido por entre as paisagens da cidade, humana como nós, cheia de artifícios e nuances tantas, ao rés do chão, do muro nosso de cada dia ( ...tão antigo e cimentado ).  Na primeira parte do livro, é sobre esse muro que ele transita, na Fenomenologia da Verossimilhança ( Corrompido pela minha humanidade/Vivo brincando de modelar o mundo/Eu, que falo de mim aparteando a todo instante... ). No segundo ato dos versos, o camaleão ainda passeia poeticamente sobre o muro, na “ Ambivalência da palavra ”, “ Escreve torto em linhas retas/Pra destino ignorado/Sua dor é um porto abandonado ”.  É um “ Andarilho ”, “ ...dos que ga...

Sorrir

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"Pode parecer estranho, mas a inglesa Tess Christian, de 50 anos, afirma que não sorri desde que era pré-adolescente. O motivo? De acordo com o Daily Mail, a mulher diz que há quase 40 anos educou seus músculos para não sorrir por não querer ter rugas e outras marcas no rosto". Assim começa um artigo que li hoje. Fiquei pensando no que as pessoas permitem que lhes façam, em uma sociedade cujos valores atuam sobre muitos como fatores desconectantes de coisas simples  que são tão poderosamente humanas como sorrir. Já viram o que um sorriso é capaz de fazer? Um sorriso exercita os músculos da face, provoca outros sorrisos, desmonta atitudes agressivas, faz bem ao coração de quem sorri e de quem acolhe um sorriso e deve ter outros tantos benefícios que não me ocorre agora. Mas em nome de se preservar a face das rugas, como se isso pudesse ser realidade permanente, e para aparentar uma juventude inexistente, deixa-se de sorrir. Porque não há juventude de fato quando não se pode...