Festa da insignificância
Este é o mais novo livro de Milan Kundera, lançado no
ano passado no Brasil. Aguardado há tempos, uma vez que da publicação de seu
último romance até este, criou-se um longo hiato esperançoso para a crítica e
também para os leitores assíduos do autor.
Dele, infelizmente só li há algum tempo “A
Insustentável Leveza do Ser”, a que me reporto como das leituras mais vivas na
memória.
“Festa da Insignificância”, devorei agora como
indicação de um clube de leitura do qual faço parte, mas já andava de olho nele
desde seu lançamento. A leitura e a discussão em grupo foram bem proveitosas.
O livro é de ficção, mas resvala por reflexões inusitadas
no campo da História, da Filosofia e de outras áreas das Ciências Humanas.
Dotado de humor e ironia que dessacraliza os ícones da
Modernidade, sejam as ideologias políticas, os referenciais da Arte, os heróis
da História, as verdades religiosamente institucionalizadas e vários valores falsificados
que regem a vida em sociedade, a narrativa se passa em Paris, capital do
chamado “iluminismo” de nossa era, envolvendo um grupo de amigos que, cada um a
seu modo, lida com o vazio e o niilismo dos tempos pós-modernos.
A narrativa começa trazendo a questão do erotismo do umbigo,
muitas vezes “pierçado”, exposto nas ruas, e a estende para as relações
umbilicais que nos engendram e o olhar autocentrado que configura as relações
na atualidade. É um retrato ficcionalizado de nosso tempo, quando todos parecem
estar em festa, numa festa de insignificâncias, onde os olhares mais lúcidos se
reconhecem sem lugar e também destoadamente insignificantes.
O livro pode parecer mal construído ao leitor
desavisado, mas propõe desafios, porque obra fragmentária, sem centro
narrativo, onde os links entre os fatos e as ideias do enredo exigem posição
ativa do leitor na construção de significados sobre a insignificância de todos
nós. Boas leituras!
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