A caminho do mar
Terceiro CD de Rubão Lima, com composições exclusivas
do artista e produção de Márcio Lucena e do próprio Rubão, o álbum traz como
carro chefe o reggae, sua linguagem
de escolha, marca de identidade do trabalho do compositor e intérprete
maranhense, que vive atualmente em Brasília.
Com um projeto gráfico primoroso, além das canções
gostosamente carreggaedas, o CD traz músicas
em outros ritmos do nordeste e norte do país. Nelas, percebe-se a forte
influência de nomes como os de Dominguinhos, Djavan, Gilberto Gil e outros.
Como não pode deixar de ser, meu foco principal acaba
sendo as letras das canções, que tratam de problemas sócio-culturais da
sociedade brasileira, como os desafios da infância nas ruas, o preconceito
racial, a intolerância, os graves problemas ambientais da Amazônia e mais.
Sobretudo é na voz de reggaero, que
aborda essas questões. Mas, na segunda metade do CD, quando as composições dialogam
com outras facetas da MPB e apresentam letras mais líricas, aborda também aspectos
da crise de valores éticos do nosso tempo.
Ao longo de todo o trabalho, há referências claras aos
princípios da fé assumida pelo artista, sem entretanto cair em um discurso
religioso reducionista e panfletário. O título metaforiza, como explica Rubão
na apresentação do álbum, a caminhada permanente em direção a Deus, fonte de
toda a vida. A canção título, uma das mais interessantes, valoriza o trajeto do
rio em direção ao mar: “Levar as folhas
por onde for/ Descer a correnteza...” “Molhar as cores do pôr do sol/ para inspirar
os poetas/ Chamar a lua e de fundo a canção/ Da cachoeira...” “Passar por baixo
de um ninho/ Correr vazantes pra irrigar o grão...”
Vale a pena entrar no curso dessas águas e colher mais
algumas pérolas poéticas, sentir a força e a beleza de suas composições. Como no
ponto alto da canção “Piscina”: “Há fragmentos na bala de coco/ Arte não tem
dono, tem precedente/ Quando a canção se emancipa da gente...”
Destaque é justo também para a canção “Tempo”. O poeta
fala com simplicidade e delicadeza sobre um dos temas permanentes da lírica de
todos os tempos. “O tempo apagou histórias, culturas, rancores/ As cores, amores,
discursos que fiz...”
Fica aí o convite para trilhar esse caminho, na dança
do rio.
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