Com a bola na mão
Hoje sou eu quem quica a bola da vez, filho. À medida que ela bate no chão e volta às minhas mãos, refaço idas e vindas, ataques e defesas de um jogo que começou a dezenove janeiros atrás. Lembro de você enterrado em uma cesta, em rede líquida e maternal, ultrapassando em muito o ritmo das batidas do meu coração, correndo entre os caminhos do meu ventre. Quando achava que estava aqui, você já aparecia ali. E assim irrequieto, acabou dando mais passes do que devia no cordão que nos unia, quase estourou o tempo. Deu trabalho na hora de irromper quadra a fora, pra vida. Já nasceu chorando seus direitos. Mas como o mundo é redondo, do jeito que você gosta, se sentiu em casa e repousou quase quietinho na esfera da minha barriga, às quatro horas da manhã de um dia festivo. Dois pontos: coragem. Lembro de como sua agilidade e impermanência eram presentes em tudo. Ninguém conseguia bloquear suas jogadas. Colocar fralda e roupa em você era um jogo rápido. Uma mão equilibrando uma bola, e ...

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