De filmes e pipocas
Um dos meus hobbies
preferidos é ir ao cinema. Aprecio sentar em frente ao telão, com um saco de
pipocas. Não pode faltar. Mastigar a massa branca e lisa, de desabrochamentos
florais, crocante, engasturante, produzindo barulhos arrastados nas paredes da
boca, enquanto vejo cenas de um enredo desafiador é tudo de bom.
Não gosto de filmes
dublados. A sensação do descompasso entre o movimento dos lábios dos
personagens e os sons que acompanham a tela me incomoda profundamente. Quando
meus filhos eram pequenos, por força da necessidade, assistia a muitos, e como
o foco era as crianças, isso pouco significava. Mas se assisto a um filme por
pleno desejo pessoal, caso seja estrangeiro, é preciso legendas.
O que não significa dizer
que o descompasso com legendas não aconteça. Você já assistiu a um filme, em
uma língua de que tem algum conhecimento, cujas legendas não só não combinam
com o discurso da tela, como se colocam adiantadas ou atrasadas em relação a
elas? É difícil administrar, pra quem vive uma relação de afeição com
diferentes linguagens. Tal descompasso costuma desviar minha atenção. Paraliso
ali, naquele estranhamento, e deixo de vivenciar o filme.
É claro que isso tem a ver
com meu perfeccionismo. Nem as legendas dos filmes nem as da vida são
perfeitas. Há deslocamentos mesmo, por ordem das inadequações de espaços, das
incompetências discursivas, das incongruências semânticas, dos limites reais de
quem produz sentido.
Há que se considerar o que é
mais enriquecedor: apreciar as possibilidades do enredo, personagens e sensações
que emanam da música, do cenário, das sutilezas do roteiro, dos jogos de luzes
e sombras, soltando as amarras até deslizar nas imagens da tela colorida, ou
ficar preso ao escuro da sala de projeção, contemplando de fora as
idiossincrasias técnicas do filme.
Enquanto fico conjecturando sobre
essas coisas, com certeza já perdi algum episódio da trama e não é mais possível
voltar a fita. Aliás, não se tem mais fita. Os tempos são velozes e os suportes
requerem novos manejos. Aprendo a me adaptar a eles.
Agora, a companhia da pipoca,
não dá pra abrir mão. Fere demais meus impulsos obsessivos pelas tradições
cinematográficas. Quase tudo é possível de assistir, se ela não faltar.
Mas não é que outro dia um piruá quebrou-me um dente? É assim. Agora tenho até
que me cuidar com as pipocas.
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