Um texto que me fala




Viro a última capa do livro de Saramago, A maior flor do mundo. Incomum, porque livro como de criança. Ele, autor laureado com o Prêmio Nobel de 1998,  recentemente falecido, alto representante da literatura portuguesa, mundialmente importante e considerado um escritor sério.
Abro mais uma vez o livro, também cheia de seriedade e interrogações. A fome de deglutir o texto ainda não me esgotou, e não consigo deixá-lo.
O narrador disfarçado de escritor ou o escritor, de narrador, não sei, me inclui num jogo fascinante desde o primeiro parágrafo, em busca de uma história, que em algum tempo ele diz inventou.
Tal história é suficientemente adiada pela irônica modéstia de quem conta. Vem a desculpa de não saber escrever histórias para crianças, leitores virtuais do livro. A protelação para chegar à narrativa do menino prenunciado nas imagens, a partir da capa, ainda gera a mesma doce angústia da espera prazerosa da primeira leitura. O prazer não é futuro, no entanto, já é, já foi, desde quando coloquei as mãos e os olhos no livro, com as imagens intrigantes de João Caetano.
Em algum momento, me lembro da felicidade clandestina de Clarice e da menina que escondia o livro Reinações de Narizinho, só para achá-lo depois e manter acesa a sensação de ser feliz com ele. Parece que Saramago viabiliza esse efeito no texto, brincando de esconder a história, já uma vez achada, mas que volto a procurar.
Acho-a de novo e o reencontro aumenta nossa intimidade. O texto se mostra vagarinho, como se ainda desconhecido, e traz uma narrativa simples, que, de tão simples, se agiganta, sem temer o inusitado, por onde trafega um menino em sua relação com uma flor minguante, recentemente encontrada, que ele ama e quer ver sobreviver. Assim, faz intermináveis viagens em busca de pequenas porções de água, trazidas a mão, que a alimentam pouco a pouco. Até vê-la grande e, cansado, se abrigar sobre sua sombra agradecida.
Vejo-me achando que, antes de mais nada, talvez pela força da necessidade de compartilhar tudo isso que você lê agora, essa relação remete ao meu contato com os livros, de que tenho um exemplar interessante nas mãos. Traço, de algum tempo, um passeio de ir e vir regar pouco a pouco um projeto pessoal de leitura, que é sempre um abrigo, uma morada permanentemente provisória.
E pensando nisso, não deixo de constatar que é o texto literário, escrito com qualidade estética assim, como esse que tenho sob os olhos, que torna o caminho da leitura mais aprazível, mesmo que eu tenha contato com tantos diferentes tipos de textos outros, que fruo e usufruo nas minhas convivências.
É a literatura, arte da palavra, que tem esse link com o prazer mais facilmente acessável, porque trata do ser humano, não falando dele apenas, mas sendo-o, em todas as suas dicções, dições e contradições. O texto literário não fala sobre mim: ele me fala, me mostra, me agrega a tramas, histórias, brinquedos de palavras e poemas que me espelham.
Daí, impossível prescindir da leitura da literatura, porque viver e ler, ao final, são faces sobrepostas de um mesmo objeto inacabado, a busca das razões de nós mesmos, dos outros, de tantos outros que desejamos conhecer e amar e que vão participando de nós.
Volto à história da flor. Faço e refaço os caminhos dos últimos parágrafos do livro e finjo terminar sua leitura, que nunca termina, de fato. Mas, fica a sensação de ser feliz.

Não, não dá pra esconder mesmo essas palavras bem arrumadas nas folhas dos livros, pelo menos esconder tanto que não se possa achá-las. O esconde-esconde, bem representado na narrativa de Saramago, é só de brincadeirinha, faz parte do jogo de fazer parte. Quero mesmo é achar a história, a minha história, portanto.

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