El baile de la victoria
Este
é o título original do filme “A bailarina
e o ladrão”, de Fernando Trueba, baseado em novela de Antonio Skármeta,
autor também de “O carteiro e o poeta”.
A
trama se passa no Chile, em tempos de abertura democrática, pós Pinochet, que
previu a anistia para presos por crimes não sangrentos. Neste contexto, são
apresentados os dois personagens masculinos principais, em recente liberdade,
um leve paralelo com o recomeço da nação chilena.
Um
deles, vivido pelo fantástico Ricardo Darín, é Vergara Grey, famoso ladrão de
cofres, que saiu da prisão pensando apenas reconstruir sua vida com a família. “O destino vai me unir à minha esposa e
filho” é uma de suas frases iniciais. Outro, o mais jovem, Ángel Santiago, retorna
do cárcere pensando realizar um grande roubo planejado na cadeia.
Ambos
terão seus planos mudados. E a arte imita a vida com sensibilidade aqui. Grey
encontra a ex-mulher e filho integrados em nova configuração familiar e fica
sem norte. Santiago conhece uma jovem, por quem se apaixona. E seu grande alvo
se metamorforiza em meio de viabilizar nova história com Victoria, a protagonista.
Victória
é bailarina, pobre, órfã, muda, sobrevivente da violência do regime contra sua
família e vítima de abusos. Ela se prostitui para sobreviver e continuar os estudos
de balé em uma academia desconhecida. Mas sua grande voz é a dança, vem dos
movimentos fascinantes de seu corpo.
O
filme é cheio de aparentes clichês cinematográficos: ladrões e golpes geniais,
mocinhas frágeis que são redimidas e recuperam a fala, desencontros amorosos
etc. Entretanto, surpreende não pelo ineditismo, mas por mostrar que a vida
carrega beleza nas histórias mais comuns e que, por tão comuns, universais e previsíveis,
nos emocionam.
O
cineasta abusou também, de forma feliz, a meu ver, da mistura de gêneros
populares, do melodrama ao faroeste, sem medo do lugar comum, e acabou contando
uma bela história, de amor e superação.
Os
ex-prisioneiros acabam por se unir para realizar o pretensioso golpe, com o
intuito principal de ajudar Victoria a recomeçar a vida e se reencontrar como
pessoa, por meio da dança. Reencontrando-se em sua singularidade, ela recupera
a fala. Nada mais esperado. No entanto, proposto com beleza, lirismo e humor.
Grey,
que perdera a família, agora tem no jovem casal apaixonado, novo propósito e
lugar de afeto. E Santiago encontra redenção, ao final, ainda que não ao lado
de Victória. Ele que, também vítima de abuso na prisão, tem tudo para deixar-se
dominar pela vingança, consegue ser livre desse domínio, entendendo que
realizá-la (e ele teve chance) não desfaz cicatrizes, apenas aumenta dores. Os
três personagens, enfim, reeditam suas histórias, pela via, sobretudo, da
solidariedade.
Uma
boa narrativa. De recomeços, redenções, esperanças e de afetos nos lugares mais
improváveis, apesar de perdas e mortes.
Para
os críticos de plantão, pode ser apenas uma novela “água com açúcar”, já que,
hoje, bom e belo é o que exalta o pessimismo, o cinismo, o ceticismo, os
dogmatismos e outros ismos mais.
Eu,
como não sou especialista em nada, carrego cá minhas desconfianças do que
chamam beleza por aí. E saí do cinema impactada por ver que ainda existem bons
contadores de histórias, em todas as manifestações de arte.
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