Da luta pela igualdade


Assisti ao filme "Selma: uma luta pela igualdade", bela produção sobre a trajetória de Martin Luther King Jr. e seus colaboradores, numa cidade do Alabama, a favor da liberdade de exercício do direito ao voto também para os afro-americanos.
O filme é um soco permanente na cara, porque faz pensar sobre os caminhos que nos levam à violência. Uns mais visíveis, porque físicos e verbais; outros, simbólicos, sutis, em pequenos atos, acordos e tramas. Uma realidade que sempre existiu e é a forma como os desumanos criam situações para a disseminação do ódio, caminhos que só se aperfeiçoam e radicalizam, desde sempre.
O bom da narrativa do filme é mostrar a luta em favor da vida, de um homem consciente a respeito dos desafios de seu tempo e espaço, para não deixar que esse ódio se disseminasse nele mesmo. Para quem conhece apenas o discurso de King “Eu tenho um sonho” ou os registros dos livros didáticos a respeito de um dos maiores ativistas de direitos humanos dos EUA, não imagina nem de longe o caminho árduo e pleno de sentimentos ambíguos e de momentos de crise vividos por ele.
Um dos méritos do filme da diretora Ava Duvernay reside justamente em mostrar as contradições desse homem que se tornou herói, pela força de um discurso contundente contra a injustiça. Um herói real, pleno de relatividades, por isso, alguém merecedor de atenção. Um homem que pisou o chão da história, com pés dispostos a se sujar, ciente dos percalços concretos que jaziam sobre seus passos, numa marcha que impactou a opinião pública americana e provocou o posicionamento do Presidente Johnson para formalizar a Lei do Direito ao Voto, em 1965.
Ao longo de todo o processo de marcha até a vitória, muito maior do que a concreta conquista do voto ou a Trilha de Selma a Montgomery ou a passagem pela Ponte Edmund Pettus, sobre o Rio Alabama, foram as reflexões e crescimentos do grupo de ativistas em meio aos muitos embates, de todas as ordens, grandes enfrentamentos, envolvendo situações e grupos diversos, desde os governos locais, até a Casa Branca; desde os aparelhos de controle policial e espionagem até os religiosos; desde as comunidades mais racistas dos EUA até os ativistas mais liberais, também passando por aqueles que eram liderados por King e a favor de seu discurso pela não violência.
Em uma das cenas mais impactantes do filme, em meio tantas outras, há o momento em que, sobre a ponte, negros e brancos param e avistam o aparato policial que os espera na outra margem. Talvez pela presença dos brancos, talvez por uma tática pensada para ações posteriores, os policiais locais se recolhem para as laterais da estrada, permitindo a passagem do grupo ativista. Surpreendentemente, King não lidera o grupo para avançar. Ali ele se ajoelha, seguido por todos, em ato de grande coragem, e ora, silenciosamente. Levantando-se, lidera os manifestantes a voltarem para a estrada em direção a Selma. A batalha já estava ganha. Ele sabia qual era a vitória.
Para os desavisados, foi uma perda de grande oportunidade de avanço. Para King e os mais conscientes do lugar onde queriam chegar, a luta foi vencida ali, sob a capa da humildade e da sabedoria de quem se reconhece sempre ao lado de todos, do bem comum, pela igualdade de todos, até de grupos que são opositores, e, por essa atitude, derrotados. A cadeia do ódio e da violência foi quebrada e a baliza do caminho sobre a ponte seguiu outra trilha de humanização.




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