onde as crianças dormem
sob um teto de zinco
não minto
uma criança dorme no senegal
não há tempo de sonho
há cansaço do lenho
da escavação
do arado
da colheita no milharal
sonhando acordado
com a bola de futebol
ah se nega a infância
à criança do senegal
sobre a cama de boneca
bem mega
uma criança dorme no japão
não há mero sonho
embrulhado em linho
que não se possa atender
com o brinquedo
com a roupa e o sapato
um farto prato,
uma peruca qualquer
ah já paga está a
infância
da criança do japão
sob o céu azul de roma
ninguém toma
dorme uma criança da romênia
um dia houve um sonho
de refúgio em outro
ninho
agora é sem nação
não tem escola
trabalho não há
só há um colchão
sem cerimônia
ah não é romana a
infância
da criança da romênia
sobre o chão de faixas e
coroas
não é à toa
dorme uma criança no kentucky
como estrela vive um
sonho
embora o pouco tamanho
quer superar beleza
manter magreza
se maquiar
ganhar concurso
armar um retrato
ah quão curta é a
infância
da criança do kentucky
sob o cheiro do lixo
coisa de bicho
uma criança dorme no camboja
apenas entorpece o sonho
com a sobra que tinha
da comida
de um resíduo de coisa
arrasta o que resta
de garrafa e lata
recicla riscos de vida
ah sobeja restos de
infância
para a criança do camboja
sob o som da bala
perdida
puxa vida
uma criança dorme no rio
acorda de um sonho
em meio à rinha
dos galos da droga
onde não há mocinho
só bandido
engole o pânico
assume a impunidade
ah martírio é a infância
da criança do rio
de onde vem a infância
das crianças que dormem
no kentuck no japão
no cambodja no senegal
sonham com o rumo de roma
e acordam num rio
de vida que corre
perdida
medindo mão inimiga
não sabem de onde
dormem as crianças
sem sonho de infância
quem vai acordar
In: FEMEAR/2014
Poema
baseado na série de fotografias de James Mollison, que viajou ao redor do
mundo e decidiu mostrar os quartos infantis por onde
passava. As fotografias foram depois compiladas em um livro intitulado Onde as crianças
dormem.
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