Passagens
(22/08/2011)

      Escher


As trajetórias humanas são feitas de passagens. Situações, pessoas, circunstâncias, lugares vão e vêm. Passam. Simplesmente passam. Tudo na vida passa: o que é bom e o que não.
Há tempos onde tal constatação é evidente. Não que em outros momentos a vida não esteja também de passagens. Mas há frações do tempo em que o insight da provisoriedade se dá intensamente.
Viver implica na contradição de lidar com aquilo que é e ao mesmo tempo não é mais. Uma espiral de movimento entre o ser e o vir-a-ser, entre o estar e o vir-a-estar.
Por vezes esta dança binária, com micro-instantes entre um passo e outro, é estonteante e gera um misto de angústia, pelo que vem e ainda não é; dor, pelo que foi e não é mais; e o gozo-pesar das lembranças do que foi ou do que inventamos ser e do que nunca foi ou será.
Isso não significa atingir configurações novas e prontas a cada passagem. Reconfigurar-se é sempre ato momentâneo, no entanto, sendo e não sendo mais. Lidar com esse fluxo contínuo é a sofreguidão vital, pela pena de, ao abrir mão dela, naufragar no complexo da mulher de Ló, cristalizada em sal, petrificada em angústia e dor.
Há que se perceber os tempos de chegada e de partida. Não há um destino a alcançar ou deixar aqui nessa dimensão da existência. As estações humanas são de passagem, sempre. Relativas e transitórias.

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