Da invisibilidade e outras impossibilidades
(14/02/2014)
Em meio a redes sociais e
reality shows, fica patente a corrida pela visibilidade. Visibilidade
contraditória, ao que parece. Em uma massificadora engrenagem, onde todos
buscam ser visíveis, carrega-se o peso escondido do que é invisível em cada um
de nós.
Li em algum lugar, de fonte
já oculta na memória, pela seleção natural de dados na era da informação, que
um respeitável pesquisador das Ciências Humanas e Sociais, estudando o fenômeno
da visibilidade social, vestiu-se de varredor de rua em um conceituado centro
universitário, por longo período, para testar sua notoriedade. Não é difícil
intuir o resultado da pesquisa.
Um amigo certa vez partilhou
que Deus também sofre de invisibilidade. Essa afirmativa teológica, pouco séria
para alguns, me impactou. Isso parece ser mesmo uma de suas limitações.
Refletindo sobre ela, considerei outros possíveis defeitos divinos, pensando
nos discursos de notoriedade que nos rondam.
Imaginei que Deus é muito
humilde. É, verdadeiramente humilde, segundo um conceito equilibrado de
humildade, como aprendi também de outro amigo. Humildade como capacidade de se
autoconsiderar com proporção de realidade, nem além, nem aquém. Sendo um Deus
humilde, não tem como deixar de se reconhecer especial e digno de ser
conhecido, sem nenhuma afetação orgulhosa ou imposição de presença ou crise de
rejeição por quem não o vê. Ele simplesmente é. Daí, sua enorme vontade de
compartilhar da realidade de si mesmo e tornar-se visto, o que lhe causa um
problemão, já que é invisível.
Foi assim que humildemente
se despiu do perfil de Deus e se tornou humano entre nós, na figura acessável e
pública de Jesus de Nazaré. Em uma boa versão desta Mensagem, encontrei: Quando
olhamos para o Filho, vemos o Deus invisível [...] Ele é tão sublime que tudo
que é de Deus encontra um lugar apropriado nele, sem nenhum conflito [...]
Agora, não tenho como deixar
de perceber algumas outras características divinas: ele é paciente, cheio de
esperança e crédulo. Em meio a todas as impossibilidades que circulam nessa
rede de interações que é a nossa mórbida vivência, nunca perdeu a expectativa
de ser enxergado como é, a matriz de toda vida.
Às vezes, fico com
pena de Deus, perdoem a ousadia. Mas quando penso que sua insistência consegue
me fazer enxergá-lo um pouquinho, logo eu que ainda lido com tantas inconsistências visíveis a olhos nus, então acredito também, como ele, que todo
mundo um dia pode chegar a ver. E olha que está dando certo. Por incrível que
não pareça.
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