Aquarius



Setembro trouxe a estreia do filme Aquarius em todo o Brasil. É uma produção franco-brasileira, do diretor Kleber Mendonça Filho, estrelado por Sônia Braga e um time significativo de artistas nacionais. Disputou a Palma de Ouro em Cannes e foi hors concours no Festival de Cinema de Gramado, onde Sônia Braga recebeu merecida homenagem pelo conjunto de seu trabalho cinematográfico. Além disso, concorre para representar o Brasil no Oscar, na categoria de filme estrangeiro.
O filme foi alvo de polêmicas políticas que correram mundo em relação ao impeachment de Dilma Rousseff, quando, no Festival de Cannes, em maio último, a equipe subiu ao palco com cartazes contra o afastamento da ex-presidenta. Além disso, gerou discussões na mídia por conta da idade de classificação do filme, 18 anos, revertida para 16 antes da estreia em circuito nacional.
Polêmicas midiáticas à parte, o filme é rico em beleza. Não só de Sônia Braga, atraente e de grande presença aos 66 anos. A personagem protagonista também tem força por si só, mas tem o privilégio de ser encarnada com apropriação pela atriz. Clara é jornalista aposentada, viúva e mãe de três filhos adultos. Mora em um apartamento de frente pra Praia de Boa Viagem, no Recife, onde viveu grande parte de sua vida com o marido e os filhos, enfrentando também um câncer de mama. Mulher inteligente e independente, vive a solitude de uma mulher mais velha, entre recordações familiares e das músicas em vinis que a acompanham, ela que se especializou no assunto e sobre isso chegou a escrever um livro.
O filme trata da luta de resistência dessa mulher em manter seus espaços existenciais contra a ocupação imobiliária atuante na região. A construtora Bonfim usa de todos os meios, os mais perversos, para fazê-la desistir de morar no apartamento, alegando que na idade dela, Clara merecia estar num lugar mais novo e seguro. O nome da empresa é sugestivo nesse aspecto.
O título do filme também. Remete à chamada era astrológica de Aquarius, que previa um tempo de fraternidade universal baseada na razão onde seria possível solucionar os problemas sociais de maneira equitativa. Essa busca é o pano de fundo do filme e da vida de Clara. Sugere ainda que a proposta existencial de Clara é apenas um aquário frente a um oceano de configurações sociais, que a protagonista teima em resistir com grande coragem feminina.
O filme é imperdível por toda discussão que provoca, seja dentro ou fora da tela. As bilheterias, com poucos dias de projeção, batem recordes. Ainda que não fosse, vale à pena assistir.

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