O direito de escolher a própria vida ou que língua, hein?!
Li recentemente uma
matéria do El País sobre uma
jornalista americana que publicou um livro, fenômeno de venda nos EUA: Solteirona, o Direito de Escolher a Própria Vida (Spinster: Making a Life
of One's Own, no título original em inglês). Trata-se de um ensaio que é um
mix de relato de experiência com
dados sobre o tema. Kate Bolick parece não temer o rótulo pejorativo e o assume
com orgulho.
Muitas matérias na mídia nacional
dos últimos tempos me fizeram pensar sobre a condição da mulher na nossa sociedade
ainda hoje: além dos comentários sobre o livro da jornalista, o recente caso de
barbárie ocorrida com uma jovem no Rio de Janeiro; as mais diferentes
observações sobre a atual primeira dama do Planalto; a nova propaganda de
beleza da Natura; as recém-lançadas Barbies, que contemplam diferentes modelos
corporais etc.
A verdade é que, em pleno século
XXI, com tantos discursos progressistas sobre a questão de gênero, percebo que a
mulher é ainda vítima de um olhar não só perscrutador da sociedade em geral, mas
muitas vezes também reducionista e, no mínimo, acusador. Há muitos arroubos e
arrotos em defesa da liberdade de ser, mas ainda estamos longe de nos tornarmos
uma sociedade com um nível de humanização onde isso seja possível. Nossa
civilidade ainda não atingiu nossas reflexões, muito menos nossa língua.
Tomo como foco aqui a questão
levantada pela própria Kate Bolick, de quem não li o livro, mas quero ler. O
tema da mulher sozinha é bastante complexo ainda hoje, seja ela solteira ou
divorciada. A viúva também tem condição desfavorável, mas há uma complacência
um pouquinho maior com ela. Afinal, até se prove o contrário, ela não está
sozinha porque quer.
Se por qualquer motivo, que não é
o foco da discussão, uma mulher resolve estar só, não se casando ou se descasando,
de imediato atribui-se a ela certa incompetência ou esquisitice, acompanhada
dos rótulos os mais diversos: solteirona, ficou pra titia; cara de santa, mas
vai ver que dá pra qualquer um; ou até mesmo, em tempos de identidades de
gênero, sapata enrustida. E se alguém a flagra num episódio de mau humor, bem, isso
é falta de sexo. Coitada, está precisando dar, mas não consegue pegar ninguém...
E por aí vai. Não se admite que
uma mulher simplesmente estabeleça pra si um projeto de vida, temporário ou
não, de permanecer só e estar bem com sua solitude. Porque estar só não implica
em ser solitária. Aliás, diga-se de passagem, só se aprende a estar com outros,
quando é possível estar bem consigo mesma.
É triste constatar, mas em nosso
mundo, os homens, as próprias mulheres, assumindo quaisquer identidades, carecem
de relações mais generosas e respeitosas. As defesas da liberdade de ser só são
verdadeiras ao redor dos umbigos. E precisamos, sobretudo, de menos
maledicência. Ah, mas falar de maledicência, que coisa mais démodé. Olha: agora apelidaram maledicência
de liberdade de expressão. Como estamos evoluindo, não é mesmo?
Arretado!!! Curti cada palavra!!! Simplesmente d+! Grande Sil...cheirin
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